quinta-feira, 1 de julho de 2010

Mundo da Lua


Permanecer lúcida era uma tarefa difícil
Pra quem se acostumou a vier na lua.

E mesmo que a realidade rudemente a acordasse
Existia nela grandes vestígios de fantasias.

Alegrava-se a prender todas as borboletas
Azuis em um mural de flores até formar o mais lindo quadro vivo.
E elas se debatiam com força,
E ela as observava com malícia, meio sem juízo.

Todavia, ela as amava e só queria para si a alegria de telas.
Não suportava a idéia de perdê-las, e como toda menina teimosa, também não hesitava em aprisioná-las.

Seu céu de um marinho tão ofuscante, que se via sempre a contemplá-lo.
Seu jardim de um colorido misto, em um aroma entorpecente.
Rogava-o todo dia, perdida em um gozo delirante.
Seu mar tinha as águas adormecidas, mais ainda assim eternamente belo.

E ela voava.
Sonhava.
E pegava nas mãos todas as estrelas do céu.

E quando abruptamente trazida a terra, envolta em seu véu, queria ela desesperadamente voltar para a lua.

Raiele Malta


sexta-feira, 25 de junho de 2010

Corpo e Alma


Eles eram dois.
Ela tinha os cabelos longos em um dourado ofuscante,
Com a pele extremamente branca.
Ele com a pela morena e barba mal feita,
Os cabelos crespos e negros em pequenos caracóis.

Tão diferentes e tão iguais.

Eles se amavam,
E juntos dividiam sonhos sem egoísmo moldando um futuro brilhante.

Ela, a virgem que penetrava seus sonhos.
Ele, o homem que a fazia dormir com sua voz levemente doce.

Um dia, amando-se em alma ele falou:
_ Quero-te
E ela respondeu
_Mais tu me tens
Ele prosseguiu
_Quero-te nua, fazer-te mulher, fazer-te amor

Por fim, ela respondeu:
_Então toma-te em teus braços e faça-me mulher, e faça-me amor

E caindo em seu colo, vestida apenas em pele,
Reluzindo a nudez de uma virgem gloriosa,
Ela entrega-se a ele, se amam em carne,
E em amor, ela torna-se mulher.

Raiele Malta


quarta-feira, 23 de junho de 2010

Erupção


O ímpeto de crescer e viver intensamente,
foi tão forte em mim, que não consegui resistir a ele.
Enfrentei meus sentimentos.
A vida não é racional!
É louca e cheia de mágoa.

Mas não quero viver comigo mesma.
Quero paixão, prazer, barulho, 
bebedeira, e todo o mal.
Quero ouvir música rouca, 
ver rostos, roçar em corpos,
beber um Benedictine ardente.
Quero conhecer pessoas perversas, 
ser íntima delas.
Quero morder a vida, 
e ser despedaçada por ela.

Eu estava esperando.
Esta é a hora da expansão, 
do viver verdadeiro.

Todo o resto foi uma preparação.
A verdade é que sou inconstante,
com estímulos sensuais em muitas direções.

Fiquei docemente adormecida por alguns séculos,
e entrei em erupção sem avisar.

Anais Nin

sábado, 19 de junho de 2010

Por vezes


Por vezes te sinto em mim, como um mago que conhece todos os caminhos para me corromper... Efusivamente você me toca, me lambe, me deseja. 
Efusivamente, você me quer. E a gente se perde no mesmo céu, no mesmo inferno, no mesmo paraíso. E você delira em mim, e eu deliro em ti, e a gente delira juntos.

Por vezes paro e fico a pensar o quão parecido comigo, você é. O quão louca você me deixa, o quão insaciável você me enceta.

Por vezes te encontro, te perco, me perco e nunca me acho, mais continuo procurando.

Por vezes te paraliso em mútua sintonia, emoção, ilusão. Sabemos que em instantes temos o mundo em mãos, mãos que desejam conhecer o desconhecido, que tem fome e que alimenta a alma com a ternura de crianças paralisadas pelo entorpecer do aroma que transborda o peito, a mente, e leva consigo, a calma.

Por vezes você me vicia, se vicia e tudo vira um único espetáculo, em um único palco, apresentando uma única história. A nossa história.

Aí, por vezes, te encontro a suspirar, e curiosa pergunto o que há.
Sorridente você responde, que, por vezes, aprendeu a amar.

Raiele Malta

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Agora você sabe... E eu também!


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Sinceramente, permito-me confessar que agora tudo mudou.
Uma mudança brusca que arrebatou e me vetou a alma.

Sinceramente, foi o dia mais lindo que vivi, o por do sol mais lindo que contemplei, as estrelas mais brilhantes que vi nascer.

Foi sim, a canção mais bela que já escutei, embora seu déficit de memória tenha atrapalhado a letra.

Sinceramente, me vi sufocada, um sufoco delicioso, eu confesso. Vi-me alarmada, enredada, amarrada. Vi-me completamente despida da realidade.

Mais voltei a tempo de te encontrar, te sufocar, alarmar e enredar em mim.
Agora me perdoa amor, por eu não acreditar em ti. Mais é que antes de vetar minha alma, você tinha me vetado os olhos. 

E só agora eu soube que foi você que em meio as minhas turbulências, se fez presente, entendeu o que se passava em mim, o que eu dizia em silencio, entendeu minha língua e até meus sentimentos. Ah, e você também soube me amar, sem medo nem caprichos. E amor, agora sim eu acredito.
  
É você soube me achar, fui eu que não soube enxergar.
E agora baby, a gente se encontra no mesmo lugar.
Onde eu vi o sol nascer junto aos rabiscos das estrelas mais lindas, onde eu senti a chuva crepitar em mim, e prometi guardar o seu segredo eternamente.

É eu acredito, e você também pode acreditar em mim.

Raiele Malta

domingo, 13 de junho de 2010

Desespero de Vida


Era no fim da tarde
Eu andava distraída, a cantarolar e achar graça da vida...
Até que a mesma bateu em minha cara, 
Esfregando uma realidade, que não tinha nada de engraçada.

Fiquei estupefata com a cena deprimente que eu acompanhava...
Era um ser, que contemplava o lixo em completa decadência

A fome e pobreza estavam estampadas em cada detalhe
Os trapos que lhe cobria o corpo
O suor a escorrer pelo rosto
Tudo em uma imensa podridão


Ele procurava com tanta fome, 
Que ao levar alguns pontas-pé se via mais exasperado a procura de comida
Queria apenas alimentar e matar
O que aos poucos lhe corroía.


E eu ficava perguntando a Deus, 
O que estava acontecendo com o mundo funesto, 
Onde os homens passaram a viver como cães farejadores de carniça. 
Tudo para acalmar o que roncava na barriga 
Como trombetas de dor, fome e exaustão.


Eu sabia que a resposta era óbvia, peremptória. 
Numa era onde a miséria prevalecia ainda maior e abaixo da nata social. 

Onde pessoas eram chutadas como cadáveres putrefatos  
Se não exercessem um padrão de vida, ao menos elevado. 
Onde os que deveriam cuidar, ficam a se vangloriar com o pão, 
Que o pobre homem catava aos prantos, desesperado.

Raiele Malta

sexta-feira, 11 de junho de 2010

É, você não sabe




Você não sabe amor, você não sabe o que se passa em mim,
o que me faz suspirar quando não estás aqui.

Você não sabe também o que eu digo em silêncio,
não entende a minha língua, tão pouco meus sentimentos.

Quando me perco você não sabe onde me achar, e perdida eu continuo,
tentando ao menos me encontrar.

Mas eu não te culpo amor, por me deixares assim sem saber o que pensar,
ou pensar demais por não se ter o que falar.

Não te culpo porque eu também sou assim, tão parecida contigo,
que me acho, por vezes, perdida em ti.

Raiele Malta